Duplo Vínculo

Duplo vínculo é mais um belo texto trazido pela Psicóloga Carla Ribeiro na coluna de Psicologia que aborda a maneira com que estabelecemos nossa comunicação com nossos filhos desde pequenos. Como nossas atitudes devem estar corretamente relacionadas com nossa fala para que a mensagem, sempre positiva seja alcançada. Nada como ter informação para entender os malefícios psicológicos do duplo vínculo. Leia e entenda do que se trata.

Duplo vínculo

A relação mãe x bebê é algo ímpar, um mundo novo que se apresenta recheado de descobertas. O vínculo materno é um laço de amor e cumplicidade iniciado desde o desejo pela maternidade ou desde a confirmação da gestação. Mas é também no exercício da maternidade que pode ocorrer o duplo vínculo, assim como em diferentes relacionamentos interpessoais, porém traz comprometimento psicológico à criança quando se trata do relacionamento mãe x filho(a) ou pai x filho(a).

Muito mais que um mal entendido na comunicação, o duplo vínculo é um modo de se relacionar, são mensagens verbais e/ou comportamentais que se mesclam para formar um duplo sentido, uma em contraposição à outra e enviadas simultaneamente em uma mensagem. Trata-se de uma forma de negar e afirmar algo ao mesmo tempo e transmitir isso através do mesmo canal de comunicação, pela fala, ou por canais de comunicação diferentes, fala e expressões gestuais ou faciais.

O duplo vínculo é uma comunicação repleta de ambiguidade que confunde e desorienta, tornando o sujeito que recebe as mensagens com baixa autoestima, dependente e fraco por nunca entender completamente o ser amado. O comportamento é afetado por diversas comunicações, sejam elas verbais ou não-verbais, como a linguagem do corpo. Pode-se dizer que, todo comportamento envolvido no ato de uma mensagem constitui a comunicação; e que toda a comunicação, não só através da fala, afeta o comportamento.

Duplo Vínculo

Vejamos alguns exemplos de situações duplo-vinculadoras entre pai e filha: o pai chama o bebê de dois anos dizendo “vem cá minha tranqueirinha remelenta”, ou “lá vem a terrorista linda do papai”. A criança ao invés de receber uma fala plenamente motivadora para correr e se jogar nos braços do pai e aconchegar em um abraço, recebe uma combinação turva de depreciação e carinho, falas que demonstram ambivalência.

Com doze anos, a menina conta feliz ao pai que beijou o menino que gostava da escola, querendo assim compartilhar sua experiência. O pai senta no sofá com a mão nos olhos em lágrimas e diz “Putz, estou feliz por você filha, tão nova…”. O pai lhe diz estar feliz por sua filha ir de encontro a descobertas da idade e, ao mesmo tempo, não consegue conter as lágrimas e sentimentos ambíguos ao afirmar isso. Na verdade, está dizendo em palavras ser natural e saudável o momento da filha, mas afirma também pelas lágrimas que isto o decepciona, de alguma forma.

Embora não tenha realmente dito isso, foi comunicado que o beijo da filha provoca desconforto do pai. Isso produz o sentimento de culpa na filha e auto repressão que, em consequência, pode abdicar de seus desejos libidinosos e da pouca autonomia que vinha conquistando. Nesse caso foram utilizados dois canais de comunicação a fala e a expressão corporal na mensagem duplo-vinculadora. Não se utilizou uma linguagem direta, sincera e objetiva. Seria assertivo que o pai mostrasse à filha sua opinião de modo esclarecedor, orientando-a para este momento.

Mensagens de duplo vínculo resultam em confusão, que vai deformando, alterando a compreensão dos fatores e modificando comportamentos. Essa é a forma de comunicação utilizada por famílias de pessoas que se tornam neuróticas.

No caso da criança que foi sempre educada em ambiente familiar com duplo vínculo pelo pai e/ou pela mãe pode vir a se tornar apática, impotente e caso haja histórico familiar de esquizofrenia, poderá vir facilmente a desenvolver este ou outros transtornos mentais, tornando-se cada vez mais distante de seus próprios desejos. A criança cresce na impossibilidade de compreender algo sobre a comunicação, o que tem como resultado a incapacidade de determinar o que as pessoas querem realmente dizer e a incapacidade de exprimir o que ela própria quer dizer.

Sendo assim, um filho que é duplo vinculado durante sua vida inteira pelos pais, passa a colocar sua existência em questão e, não tendo uma visão certa de seus sentimentos e dos sentimentos dos outros, tende a ficar permanentemente confuso.

Duplo Vínculo

O duplo vínculo é passado de geração em geração quase que despercebido pela própria família. Segundo Roberto Freire, só se torna um duplo-vinculador um indivíduo que foi duplo vinculado.

A formação da criança está relacionada com a sua hereditariedade 50% e seu meio social 50%. Hoje em dia é fácil observar indivíduos do cotidiano que aplicam o duplo vínculo em outras pessoas. Quantas vezes alguém lhe disse que está bem quando na verdade você percebe no tom de voz que não está nada bem? Pois é, aí já se encontra um duplo vínculo e que, se você tivesse um vínculo muito forte com essa pessoa a resposta ambígua dela lhe seria preocupante. É mais saudável ser sincero, dizendo um não do que transmitir uma mensagem dúbia.

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BENOIT, Jean-Claude. Vínculos Duplos – Paradoxos familiares dos esquizofrênicos. São Paulo, Zahar, 1982

JACCARD, Roland. A loucura. São Paulo, 1º ed., Zahar Editores S.A., 1981.

WATZLAWICK, Paul e BEAVIN, Janet H. e JACKSON, Don D. Pragmática da comunicação humana: um estudo dos padrões, patologias e paradoxos da interação. São Paulo, Ed.Cultrix, 1967

Carla Ribeiro

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